REPORTAGEM – A cidade dos discos voadores

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Uma viagem a Caçapava do Sul revela por que a cidade é conhecida como a capital gaúcha dos OVNIs. Ufólogos acreditam que sua localização é propícia para a abertura de portais dimensionais.

Por Daniel Gruber e Caroline Pilger

Já passava das 20 horas quando a professora Itumara Vivian, cortando um bolo na cozinha de sua casa, foi surpreendida por um brilho intenso que passou pela janela. O filho, que estava de costas, só percebeu a forte luz alaranjada inundar a copa. Era um objeto luminoso, do formato de uma antena parabólica. Veio do final da rua, passou por cima da casa e sumiu. Durante os 10 segundos em que sobrevoou o telhado – e mesmo sem fazer barulho algum – a professora teve a nítida impressão de que ele destruiria a casa. Nada demais aconteceu, aparentemente. Mas além do susto, dona Itumara teve um prejuízo de mais de quatro mil reais. Só foi notar dois dias depois, quando uma forte chuva caiu sobre a cidade e uma infiltração apareceu. Ao verificar o telhado, a professora levou um susto; as telhas estavam todas trincadas, algumas rachadas, muitas delas desconjuntadas.

 Imediatamente ela foi procurar o colega Elver Teixeira, conhecido na cidade por entender “desses assuntos”.

 – Olha, Elver, os ETs me deram um baita prejuízo lá em casa.

Foto 02O professor, que é formado em geologia, mas dá aulas de matemática em colégios da rede municipal, pesquisa sobre o assunto há mais de 40 anos. Desde que era criança ouvia a mãe contar sobre luzes misteriosas no céu que espantavam o gado. Passou a juntar recortes de jornais e revistas da época que falavam sobre o tema e nunca mais parou. Era muito reticente “nesse negócio de entrar para alguma coisa sem refletir”, e dizia que quando entrava, não saía mais. Tantos anos depois, a história de dona Itumara ainda seria capaz de intrigá-lo.

Ele pediu então algumas das telhas emprestadas e mandou para análise. Entrou em contato com um engenheiro mecânico responsável pela fabricação daquele tipo de cerâmica, mas o homem não soube identificar o que aconteceu, nem que parâmetros físicos ou químicos estariam envolvidos naquelas danificações. Na maioria das telhas havia lascas de um a 20 cm de diâmetro, semelhantes a bolhas estouradas. É preciso mais de mil graus para se formar uma telha dessas, disse o engenheiro. O professor Elver acredita que, a nível mundial, os OVNIs – objetos voadores não-identificados – produzem um efeito microondas quando o campo magnético deles está muito próximo da Terra.   

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No mesmo dia do incidente, 02 de agosto de 2008, um funcionário do mercado próximo à casa de dona Itumara teria visto um grande objeto em forma de cone sobrevoar o telhado dela. O testemunho do funcionário surgiu entre os boatos que se contam na vizinhança, pois ele jura que não viu nada. Assim como muitos na cidade, ele tem medo de ser taxado de louco. O professor Elver, que até hoje estuda o caso, tem somente uma certeza, a de que “para fazer uma lasca sair dessa telha, não é qualquer isqueirinho que vá conseguir”.

Cidade sitiada

Histórias como essa fazem parte do imaginário dos moradores de Caçapava do Sul, na região central do Estado, a cerca de 260 km de Porto Alegre. O município, de pouco mais de 30 mil habitantes, ficou conhecido pelo grande número de relatos a respeito de discos voadores, tanto na cidade como em seus outros seis distritos. O que se fala na cidade é que, quem ainda não viu, pelo menos já conheceu alguém que viu alguma coisa estranha no céu.

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E realmente não parece difícil encontrar algo diferente no céu caçapavano. É uma abóbada tão límpida – sem luzes e sem poluição – que à noite, do alto dos 450 metros de altitude em que fica a cidade, é possível ver um número de estrelas maior do que a gente possa acreditar que exista. Durante o final de semana em que estivemos lá, não vimos nada distinto, além de uma estrela cadente. Mas se ficássemos mais três ou quatro dias, teríamos com certeza descoberto algo incomum – como nos garantiu o tatuador Yuri D’Ornellas, que já teve mais de seis experiências envolvendo objetos luminosos (numa delas, inclusive, disse ter se comunicado com o OVNI usando a luz alta de seu carro).

O grande número de avistamentos levou à criação de dois grupos de estudos na região. Um deles é o GPUC – Grupo de Pesquisas Ufológicas de Caçapava, fundado há mais de 10 anos, e do qual o professor Elver é o principal atuante. Segundo ele, não há nada de extraordinário na cidade, a não ser a atenção dos moradores, voltada para cima. Já o Projeto Portal, grupo do Mato Grosso do Sul – e cuja uma das sedes fica em Minas do Camaquã, um dos distritos do município – se estabeleceu ali por motivos ainda mais concretos.

O ufólogo gaúcho Alexandre de Oliveira, um dos pesquisadores do Projeto Portal, acredita que a fama do lugar está relacionada à sua localização. Foi feito um levantamento, segundo ele, e constatado que realmente havia muitos relatos de avistamentos, devido à influência de um forte magnetismo. “A região favorece algumas aberturas no espaço”, explica. “Podemos chamar de xendras, que são portais por onde esses objetos entram na atmosfera, possibilitando ingressarem no nosso espaço tridimensional, que é a Terra. O modo como esses portais abrem e fecham, e dão vazão para a aparição de algum fenômeno, é muito similar ao método utilizado no Triângulo das Bermudas.”

Quanto à formação rochosa insólita do lugar, a geologia do professor Elver não nega: “é um local com uma energia muito forte. São energias telúricas, geomagnéticas.” Caçapava é uma região que têm muitas fraturas, ao redor da cidade e em todo o município. “A crosta da Terra é uma casca de ovo trincada”, diz o professor, “e dessas regiões vêm emanações magnéticas fortíssimas de dentro”.

Eles estão entre nós

Passamos por estradas completamente desertas no segundo dia, e levamos uma hora de carro até Minas do Camaquã, a 70 km do perímetro urbano. A vista maravilhosa dava para os rochedos, e vez ou outra uma espécie de neblina cobria tudo – o que na verdade era a poeira das fábricas de calcário da região. Naquele domingo, os pesquisadores do Projeto Portal encerrariam um “trabalho de campo” lá. Um senhor em Caçapava, que na véspera havia recém chegado das Minas, nos garantiu que o lugar estava “cheio de ufólogos”. Seria o fim de mais um encontro paracientífico de final de semana.

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A sede do projeto ficava logo na entrada, ao lado de uma alameda de araucárias que acompanhava boa parte do caminho. É um galpão comprido, que lembra uma colônia de férias. Pedimos informação a um senhor que ajeitava uma barraca dentro de um porta-malas lotado. Ele vestia uma camiseta com imagens de discos voadores e outras figuras místicas, e os dizeres Você ainda acredita que estamos sozinhos no Universo?

– O Urandir está se preparando para encerrar o evento – disse o homem. Urandir era o pesquisador que viemos encontrar. – A noite foi longa e ele quase não dormiu.

Atravessamos todo o povoado – um aglomerado de casinhas simples, com as janelas e portas fechadas, e nenhuma viva alma nas ruas. O prédio decrépito que um dia foi o hospital, e um galpão que imitava a fachada de um saloon americano, reforçavam a ideia de uma cidade fantasma do Velho Oeste. Subimos um morro rodeado por campos verdes e chegamos a um paiol de CTG, onde os participantes do grupo começavam a se acomodar.

Eram cerca de 160 pessoas de diversos locais do Estado que estavam ali. A maioria delas já acompanha o projeto há mais de 10 anos. Nós não pudemos participar da palestra de encerramento, pois, segundo os ufólogos, era voltada para o público avançado, e nós “não entenderíamos nada”. E então, distribuindo sorrisos e acenos ao público do evento que o aclamava, Urandir de Oliveira apareceu.  

O mensageiro dos céus

Desde pequeno ele já fazia coisas fora do comum. Entortava talheres e quebrava pratos com a força da mente. Sempre gostou do desconhecido – chegou a dormir em cemitério para ver fantasma. Aos nove anos já sentia presenças por perto, via vultos, e ouvia vozes chamando seu nome. Naquela época, ele não tinha conhecimento algum sobre assuntos ligados à ufologia, apesar de que as iniciais de seu nome – Urandir Fernandes de Oliveira – (segundo ele por pura coincidência), formam a sigla UFO.

Foto 05Foi somente aos 13 anos que ele teve seu primeiro contato. Eram seres muito parecidos com nós (os humanos), altos e muito bonitos. A única diferença de uma pessoa normal é que tinham as pupilas verticais – como os olhos de gato – e as unhas muito brancas. Falavam com uma voz muito clara. Ele foi sugado de seu quarto por um feixe de luz violeta e levado para o interior de uma nave, onde os seres lhe encarregaram de uma missão muito especial: transmitir suas informações aqui na Terra. Mais tarde, ele viria a fundar o Projeto portal.

Quando há um grupo que faz esse trabalho – uma espécie de vigília noturna nos céus – os seres de outras galáxias podem captar a frequencia do cérebro. Urandir diz se comunicar frequentemente com esses seres. Chegou a fazer uma espécie de acordo com eles: aceitaria a missão de ser um porta-voz dos céus, se eles se comprometessem a aparecer para um grupo de pessoas, para provar que existem, e para que ele não “pagasse mico, não caísse no ridículo”.

– Foram várias manifestações – disse Urandir, sobre a vigília da véspera. – O pessoal ficou maravilhado com aquilo que viu, em termos de luzes, de objetos, de manifestações… Foi demais, foi um show! A luz imensa, as manobras radicais que eles promovem, tudo isso descarta qualquer possibilidade de tecnologia da Terra.

Segundo o dito paranormal, esses seres querem unicamente ajudar a humanidade, que está “alienada pela influência dos dirigentes mundiais”. Foram visitantes de outros mundos que povoaram a Terra, diz ele, e afirma que cerca de um terço da população do planeta teria descendência alienígena.

Os ufólogos são unânimes em dizer que aquela figura assustadora dos ETs – uma criatura cabeçuda e de olhos gigantes – não existe. São, na verdade, seres constituídos basicamente de energia. Enquanto nós somos formados por 90% de matéria, eles são o contrário, apenas 10%. Mesmo o professor Elver, que segue uma linha de estudos distinta do Projeto Portal, acredita que “lagartinho gosmento não dirige nave espacial”. Eles são, de forma geral, seres humanos muito mais antigos do que nós. Falam fisicamente, em português claro (eles teriam uma grande facilidade em aprender línguas) – já que evidências telepáticas ou psicografadas não são aceitas: tudo o que tiver interferência mental ou astral leva a um resultado péssimo em relação à pesquisa.

“Uma grande pilantragem”

Segundo o Departamento de Astrofísica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a existência de vida extraterrestre vem sendo discutida desde a década de 1950. Ganhou mais intensidade nos últimos anos, graças à detecção de possíveis microorganismos em um meteorito de Marte, e da existência de oceanos congelados no planeta (a água é o elemento primordial para a existência de vida). Segundo o astrofísico Basílio Santiago, docente na universidade, há coisas sensacionais acontecendo no mundo da ciência, e que são muito mais verificáveis do que aparições de OVNIs.

A regra fundamental é que os seres vivos tenham metabolismo, se reproduzam, sofram mutações, e reproduzam essas mutações. Já a vida inteligente, requer mais de uma centena de bilhões de células, diferenciadas em um organismo altamente complexo. Portanto, a seleção natural requer um longo tempo. A existência de vida inteligente pode ser descartada em todos os demais planetas do Sistema Solar, segundo o site do departamento.

Dentro de um raio de 80 anos-luz da Terra, existem cerca de 800 estrelas similares ao Sol. A espaçonave mais veloz que a espécie humana já construiu até agora (o Voyager, da NASA) levaria 80 mil anos para chegar à estrela mais próxima. O combustível necessário para a viagem ocuparia mais de mil navios. E esta é a principal razão para que os astrônomos sejam tão céticos a respeito dos OVNIs. Devido às distâncias enormes e gastos energéticos envolvidos, é improvável que as dezenas de relatos noticiados a cada ano pudessem ser visitantes de outras estrelas, tão fascinados com a Terra que estariam dispostos a gastar quantidades fantásticas de tempo e energia para chegar aqui.

O chefe do Departamento de Física da universidade, Marco Idiart, acredita que todas as evidências de ufos são relatos em que é preciso confiar mais em que conta do que no próprio bom senso. “Via de regra, quando se pergunta a essas pessoas onde estão as provas materiais, eles inventam teorias conspiratórias, onde os extraterrestres não querem se dar a conhecer”, diz ele. “Ou seja, uma grande pilantragem”.  

Os moradores de Caçapava do Sul, no entanto, não parecem estar preocupados com questões de física quântica ou astrobiologia. As luzes misteriosas que eles veem no céu não carecem de explicações científicas. A única coisa que incomoda a professora Itumara, por exemplo, é o fato de que nenhuma força do universo vai se responsabilizar pelo prejuízo em seu telhado.

POLÍCIA – Polícia Civil desarticula quadrilha que roubava cargas de cigarro

Dono dos Guinchos Mauá é acusado de estar envolvido com empresário que pulou de prédio.

 

* matéria publicada dia 15 de julho de 2008 no site www.jornalnh.com.br

 

O delegado João Bancolini da 3° DPRM, que comanda a Operação Fumaça II, deu detalhes em uma coletiva sobre a ação que prendeu na manhã desta terça-feira o empresário Ademir Dellabeta, proprietário dos Guinchos Mauá, no bairro São Jorge, e outras duas pessoas, Jair Ricardo Fauth e Itaner Monzaqui Tondin.

 

Segundo Bancolini, Dellabeta é acusado de receptação de quadrilha, junto com Tondin. Jair Fauth, que é perito funcionário da empresa de guinchos, está sendo investigado pelo envolvimento, mas foi liberado na tarde de hoje por colaborar com a polícia nas investigações.

 

A quadrilha estaria envolvida com um assalto que ocorreu no dia 29 de abril deste ano em Santo Antônio da Patrulha. Uma carga de 121 caixas de cigarros da empresa Souza Cruz foi roubada pelos integrantes, que trouxeram 91 delas para Novo Hamburgo, em uma caminhonete abandonada em uma garagem pública na Rua 24 de Maio.

 

A caminhonete, com placa e chassi adulterados, foi apreendida por dois policiais militares, que estão sendo investigados pela Corregedoria Geral da Polícia Civil – Cogepol, mas que, a princípio, não possuem ligação com o grupo. O veículo foi levado pelos policiais, com a carga dentro, para a empresa de guinchos. A carga foi reconhecida pelo proprietário, Dellabeta, que supostamente fazia parte do grupo.

 

Segundo o Inspetor de Polícia de Estância Velha, Paulo Rogério da Silva, ao tentar fazer a carga chegar ao seu destino, descobriu-se o envolvimento de Tondin, que era o mediador da venda. A investigação vinha sendo realizada desde a primeira semana de maio através de escutas telefônicas.

 

Empresário que se jogou do prédio era o mandante

 

A primeira operação, Fumaça I, culminou com a morte de Laone Meinhardt após 15 dias internado no hospital, depois que ele se atirou do terceiro andar de um prédio em Dois Irmãos, para fugir da polícia. Meinhardt seria o mandante intelectual da quadrilha, segundo o delegado Bancolini. A relação entre ele e Dellabeta (que foi identificado nas escutas pelo apelido de “Alemão”), foi confirmada após ser descoberto o destino da carga roubada pela quadrilha em abril.

 

Outras cinco pessoas foram presas neste mesmo dia, acusadas de participar da quadrilha, que além de roubar cargas de cigarro também roubava malotes bancários. A polícia estima que já tenham defraudados cerca de R$ 1 milhão em mercadorias e dinheiro. Laone era o “intelectual” da quadrilha, segundo Bancolini, e só foi reconhecido pelas escutas, já que nunca participava ativamente dos assaltos.

CULTURA – Entrevista: Moacyr Scliar fala sobre a tradição literária gaúcha

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O imortal da Academia Brasileira de Letras esteve na 26° Feira Regional do Livro em Novo Hamburgo.

 

O escritor gaúcho Moacyr Scliar é uma figura pública bastante popular aqui no Estado. Além de um autor dotado da falta de estrelismo e também um grande médico, podemos encontrá-lo nas salas de aula da Medicina ou nos eventos literários sempre em contato direto com seu público.

 

No entanto, Scliar é um imortal. Ocupa a cadeira N° 31 da Academia Brasileira de Letras, que já foi de Luís Guimarães Júnior e Geraldo França de Lima, e tem mais de 80 livros publicados entre romances, contos, crônicas, infanto-juvenis e ensaios. É um escritor de abrangência nacional, conhecido pelos amantes da literatura em todos os lugares do Brasil. Sua obra tem diversos livros publicados no exterior. Além disso, é colunista em diversos jornais e revistas do país e do mundo. 

 

Ele esteve em Novo Hamburgo no último dia 12 para participar da 26° edição da Feira Regional do Livro no município, como é costume há muitos anos. Antes de um encontro com alunos das escolas municipais, no qual falaria sobre sua trajetória como escritor, Scliar concedeu uma pequena entrevista onde fala sobre a importância de participar de eventos literários.

 

DANIEL GRUBER Com a feira regional, aqui de Novo Hamburgo, e a de Porto Alegre, uma das maiores do Brasil, como elas ajudam a atrair novos leitores?

MOACYR SCLIAR A feira do livro é o lugar ideal para o jovem leitor, porque proporciona para o pessoal mais moço esse encontro com o livro, mas em um ambiente informal, descontraído, alegre, festivo. Não é aquela coisa solene, por que o pessoal mais jovem fica meio intimidado diante no livro e diante dos autores. Mas numa feira do livro, não. Aí realmente é festa, e o livro se transforma em festa.

 

DG Tu participas bastante de eventos como esses. Como tua presença ajuda a atrair novos leitores, e também o público já habituado à leitura?

SCLIAR Eu não tenho dúvida em relação a isso. É por isso que eu vou, e eu vou sempre que eu posso, mesmo que sejam lugares distantes no nosso país. Eu viajo muito por aí. Por que eu estou convencido de que faz parte do trabalho do escritor motivar os leitores.

 

DGInclusive, tu participaste do evento itinerante Tim Grandes Escritores.

SCLIAR – Vou participar semana que vem [esta semana]. Mas já participei outros anos.

 

DGE como é levar a literatura para outras cidades do Brasil?

SCLIAR – Nesse caso aí, tem um benefício adicional que é o seguinte: como esse programa é em cidades do interior de Minas Gerais, eu vou lá na qualidade de escritor gaúcho, falando sobre a literatura da nossa terra,  sobre os escritores aqui do Rio Grande do Sul e sobre o Rio Grande do Sul em geral.

 

DGO Rio Grande tem uma tradição bem forte na literatura. Inclusive, temos aqui na Unisinos (Universidade do Vale dos Sinos, em São Leopoldo) o curso superior de Formação de Escritores, o único no país.  

SCLIAR – Não só isso, acho que é uma tradição. E essa tradição, em grande parte, tu podes atribuir ao papel desempenhado pelos imigrantes. Por que é uma coisa assim que chama a atenção, o fato de que os imigrantes, mesmo muito pobres, eles liam. E quando eles vinham da Europa, na bagagem deles, mesmo que tivesse muita pouca coisa, um livro sempre tinha. No mínimo a Bíblia sempre estava ali. Isso criou uma tradição de leitura, e isso faz com que o Rio Grande do Sul hoje seja o estado que mais lê. A média de leitura no Rio Grande é o dobro da média no Brasil.

 

DGA que tu atribuis a falta de procura pelos livros? Seria um desinteresse em si ou o fato do livro ser muito caro?

SCLIAR – O livro realmente é caro, e tem um outro fenômeno agora, que a leitura não se restringe mais só ao livro. As pessoas estão lendo jornais, as pessoas tão lendo revistas e as pessoas estão lendo na internet. Isso é uma coisa muito importante, porque a internet realmente vai se transformar num espaço literário. Por enquanto, ainda tem muita coisa misturada, de valor desigual, mas eu não tenho dúvida de que para os jovens escritores a internet vai ser importante.

 

DGEntão tu apóias que tuas obras migrem para a internet?

SCLIAR – Eu apoio e sempre que posso colaboro. Nós temos aí um problema que é o dos direitos autorais na internet. Mas quando isso for resolvido, eu não tenho dúvida de que além de livros, além de jornais, além de revistas, as pessoas vão ter mais um espaço para ler.

 

DGO que tu achaste do (escritor) João Ubaldo Ribeiro ter ganhado o prêmio Camões, em Portugal, que é o mais importante prêmio literário da língua portuguesa?

SCLIAR – Para mim foi uma alegria assim por vários motivos. Primeiro porque o João Ubaldo é um grande escritor e é um grande representante da literatura brasileira. Segundo, ele é meu amigo há muitos anos, convivemos bastante, somos colegas na Academia Brasileira de Letras. E esse prêmio é um prêmio importante. Eu já fiz parte do júri desse prêmio. E sei que é um prêmio extremamente disputado e eu estava torcendo para que o João Ubaldo ganhasse. Eu acho que melhor do que isso é só o Brasil ganhar as Olimpíadas.

 

DGAtualmente o que o Moacyr Scliar lê?

SCLIAR – Eu continuo com as minhas preferências. Este ano estou lendo muito Machado de Assis. Estou relendo, melhor dizendo, por que é o ano dele. Estou lendo Guimarães Rosa, que é o centenário. E um autor que eu reli é Cyro Martins, um gaúcho, também é o centenário dele este ano. Ele fala do Rio Grande do Sul sob um outro enfoque. E ele fala do gaúcho a pé. Não é o gaúcho a cavalo, o gaúcho que tem o gado, não. É o gaúcho pobre, desprotegido, e é muito bonito o que ele escreve.

CINEMA – O fim dos tempos de M. Night Shyamalan

A crítica cinematográfica esperava o fim dos tempos para o diretor M. Night Shyamalan no ramo de filmes de suspense, gênero que o consagrou, após seu fracasso nas bilheterias com A Dama na Água, de 2006. Mas o cineasta é conhecido por surpreender, e eis que volta com uma produção nos mesmos moldes de seus últimos trabalhos.

 

Fim dos Tempos, estrelado por Mark Wahlberg, estréia nos cinemas mundiais 13 de junho, sem nenhum alarde e sem grandes expectativas, mas com grande potencial para satisfazer os fãs do diretor. O filme conta a história de uma família que foge em busca de abrigo, após uma terrível epidemia se espalhar pelo país e fatos bizarros acontecerem após o alastramento de uma estranha toxina.  

  

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O terror tem início quando uma onda de suicídios começa a percorrer uma cidade do Oeste americano. Primeiro, uma mulher se esfaqueia em um parque. Depois, um grupo de operários se joga de um edifício em construção. As mortes sempre ocorrem após a insinuação de uma brisa letal passar pelas vítimas. O enredo começa então a revelar aos expectadores que alguma coisa estranha está viajando pelo ar. O governo classifica como um vírus e acredita na idéia de um atentado terrorista.

 

Mas o extraordinário é novamente o pano de fundo para as questões existenciais de Shyamalan, já que esse é o atrativo maior em seus filmes: tensão e suspense. O terror também não falta nesse, resgatando uma característica presente em seus primeiros filmes. Shyamalan declarou à agência de notícias internacional Reuters que “quis fazer um filme B fantástico e divertido”. O resultado pode ser semelhante ao que aconteceu com Sinais, de 2002, em que já havia utilizado elementos de filmes de terror antigos.

 

A trama revela a epidemia como fruto de uma toxina liberada pelas plantas. O tema presente aqui é a preocupação ambiental, uma crítica ao aquecimento global. O elemento sobrenatural não é nenhum já utilizado pelo diretor, e, aliás, pouco utilizado por outros diretores de thrillers, mostrando que Shyamalan é um cineasta com poder de se reinventar, e ser original dentro de seu próprio rótulo. Em seus filmes já houve espíritos, super-heróis, alienígenas, monstros folclóricos e seres de contos de fadas. O inimigo agora é a própria natureza.  

 

“Há tantas coisas com as quais nos tornarmos paranóicos hoje em dia”, afirmou o diretor à Reuters. “Eu sempre tive claro para mim o tipo de filme que estava rodando”, referindo-se ao fato de jogar com o medo das pessoas a respeito de coisas como terrorismo e mudanças climáticas.

 

Carreira em alerta

 

Shyamalan, que já foi considerado o “mestre do suspense moderno” após seu cultuado O Sexto Sentido, de 1999, vinha sendo cada vez mais recriminado à medida que lançava seus filmes de mistério e finais surpreendentes, e cada vez mais decepcionava as expectativas de seu público. O grande mistério de seu trabalho, na verdade, não é a trama, mas o porquê eles vêm sendo menos aceitos pelos fãs, já que o diretor mantém em todos eles suas principais características – as mesmas que o consolidaram.

 

O próprio Shyamalan declarou, após ser duramente criticado por A Dama na Água, que não tornaria a fazer filmes sobrenaturais, e que iria se voltar para o drama e histórias mais realistas. Ele inclusive anunciou seu acordo para dirigir o filme Avatar – The Last Airbender, de ficção científica, e todos acreditaram que ele havia desistido dos thrillers.

 

Fim dos Tempos traz os mesmos elementos vistos em seus últimos filmes, como Sinais e A Vila (2005). Personagens inexpressivos, recheados de problemas existenciais, câmeras cortadas, tomadas longas, o barulho como elemento de tensão, e um grande problema de proporções globais, no ponto de vista de um micro universo – lugares restritos e mínimo elenco.

 

Wahlberg (Rock Star e Planeta dos Macacos) é a nova aposta do diretor, que sempre costuma trabalhar mais de uma vez com seus atores, já que não “reaproveitou” Paul Giamatti, protagonista de seu último filme. Shyamalan usou duas vezes Bruce Willis (O sexto Sentido e Corpo Fechado, de 2000), Joaquim Phoenix (Sinais e A Vila) e Bryce Dallas Howard (A Vila e A Dama na Água).

 

Além disso, parou de atuar em seus próprios trabalhos, após ter sido arduamente censurado por interpretar um personagem importante em seu último trabalho (ele chegou a ganhar um Framboesa de Ouro, prêmio paródia do Oscar – que elege os piores profissionais do cinema –, de Pior Ator de 2006). Críticos estão divididos sobre o que esperar de Fim dos Tempos, já que esse pode ser a retomada do cineasta às bilheterias (Sexto Sentido teve seis indicações ao Oscar e rendeu, junto com Sinais, US$ 1,7 bilhão de dólares no mundo todo) ou a destituição definitiva de seu título de “mestre do suspense moderno”. 

COMPORTAMENTO – Ora, pois! Agora vamos todos escrever iguais

Portugal aprovou o acordo para a mudança e a padronização da língua nos oito países em que é o idioma oficial.

 

Quem já teve o gosto de folhear um livro antigo, desses comprados nos sebos, já deve ter se deparado com frases do tipo “êle foi à pharmácia”. Mudanças ortográficas ocorrem de tempos em tempos e, agora, se você encontrar por aí “abençoo a ideia frequente das autoindústrias”, não estará errado. A ortografia da língua portuguesa está mudando, e alcançará maior cumplicidade com as diversas formas de escrevê-la nos oito países que a tem como idioma oficial.

 

O governo de Portugal, que é a pátria-mãe do idioma e é quem decide todas as mudanças da língua, já aprovou a reforma ortográfica em decisão tomada pelo Conselho de Ministros. O acordo prevê a padronização da escrita nos oito países: Portugal, Brasil, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Angola, Guiné-Bissau e Timor Leste. As mudanças na língua afetam principalmente a grafia e a acentuação das palavras. As pronúncias devem continuar de acordo com as de seu país.

 

O documento, datado de 1990, mas só agora aprovado, confere um prazo de seis anos para que a reforma seja totalmente implantada. No Brasil, ela estava prevista para entrar em vigor este ano, em janeiro, mas ainda falta a assinatura presidencial. O processo deve ser acelerado com o acordo português, já que antes o país resistia em formalizar as mudanças. Cabo Verde e São Tomé e Príncipe também já se comprometeram com as novas regras. Um dos motivos da demora era a pressão dos editores de livros de autores africanos. 

 

Agora o idioma terá 26 letras – o K, o Y e o W foram definitivamente incorporados –, um provável fruto da globalização, com a presença forte do estrangeirismo de línguas universais, como o inglês e o espanhol. Segundo o professor de língua portuguesa do centro Universitário Feevale, Dr. Ernani César de Freitas, “toda língua deve estar conectada com sua comunidade falante. Nesse sentido, as incorporações são de diversas ordens: políticas, culturais, sociais”.

 

Vale lembrar que, depois do inglês e do espanhol, o português é o idioma mais usado no mundo ocidental, com mais de 200 milhões de falantes. Muitas regras de acentuações serão abolidas. O trema será eliminado por completo, a não ser em nomes próprios. O emprego do hífen também será poupado. “Trata-se de uma reforma parcial”, acredita Ernani, “que não unifica a escrita de fato, e mexe mal em pontos como o acento diferencial.”

 

O que muda?

 

Assim que as regras sejam incorporadas ao idioma, inicia-se o período de transição no qual ministérios da educação, associações e academias de letras, editores e produtores de materiais didáticos devam se adaptar e possam reimprimir livros, dicionários, gramáticas, etc. Com as modificações propostas no acordo, calcula-se que 1,6% do vocabulário de Portugal seja modificado. No Brasil, a mudança será bem menor: 0,45% das palavras terão a escrita alterada.

 

“É uma reforma tímida”, afirma o professor, “que não traz grandes inovações na forma de escrever do brasileiro. É questão de adaptação. O processo é simples para aqueles que já têm domínio do português brasileiro em sua norma padrão (culta).”

 

Ele lembra que já houve reforma ortográfica anterior, em 1971, através da qual alguns acentos já haviam sido revogados no Brasil.  “Essa adaptação talvez seja difícil, mas a língua é um organismo vivo e vai seguir em frente. Como toda mudança, podem existir pequenas dificuldades momentâneas. Mas para quem domina satisfatoriamente o idioma português brasileiro, essas dificuldades iniciais serão facilmente sanadas e incorporadas à prática cotidiana”, acredita.

 

A nova normatização é apenas parcial, sem grande complexidade de assimilação. Apesar da mudança ser maior em Portugal, ela não chegará a descaracterizar o modo de falar ou escrever em seu berço. “As atualizações, as incorporações, as reformas são bem-vindas para manter ‘vivo’ o idioma”, diz Ernani. “O acordo ortográfico tem a intenção manifesta de incrementar o ‘valor de mercado’ do português.”

 

Segundo a agência de notícia internacional Efe, escritores, editores, políticos e intelectuais portugueses já se manifestaram contra o acordo, alegando que a língua-mãe estava cedendo ao dialeto pela força que os 180 milhões de brasileiros exercem sobre a política do país. Seria uma retaliação da ex-colônia, acreditam uns. O escritor português José Saramago, o único Prêmio Nobel de literatura da língua portuguesa, declarou-se no semanário Expresso: “desejo êxito e muitos bons livros, escritos à forma antiga ou moderna, e que não me obriguem a escrever de outra maneira nos poucos anos de vida que me restam”.

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