Uma viagem a Caçapava do Sul revela por que a cidade é conhecida como a capital gaúcha dos OVNIs. Ufólogos acreditam que sua localização é propícia para a abertura de portais dimensionais.
Por Daniel Gruber e Caroline Pilger
Já passava das 20 horas quando a professora Itumara Vivian, cortando um bolo na cozinha de sua casa, foi surpreendida por um brilho intenso que passou pela janela. O filho, que estava de costas, só percebeu a forte luz alaranjada inundar a copa. Era um objeto luminoso, do formato de uma antena parabólica. Veio do final da rua, passou por cima da casa e sumiu. Durante os 10 segundos em que sobrevoou o telhado – e mesmo sem fazer barulho algum – a professora teve a nítida impressão de que ele destruiria a casa. Nada demais aconteceu, aparentemente. Mas além do susto, dona Itumara teve um prejuízo de mais de quatro mil reais. Só foi notar dois dias depois, quando uma forte chuva caiu sobre a cidade e uma infiltração apareceu. Ao verificar o telhado, a professora levou um susto; as telhas estavam todas trincadas, algumas rachadas, muitas delas desconjuntadas.
Imediatamente ela foi procurar o colega Elver Teixeira, conhecido na cidade por entender “desses assuntos”.
– Olha, Elver, os ETs me deram um baita prejuízo lá em casa.
O professor, que é formado em geologia, mas dá aulas de matemática em colégios da rede municipal, pesquisa sobre o assunto há mais de 40 anos. Desde que era criança ouvia a mãe contar sobre luzes misteriosas no céu que espantavam o gado. Passou a juntar recortes de jornais e revistas da época que falavam sobre o tema e nunca mais parou. Era muito reticente “nesse negócio de entrar para alguma coisa sem refletir”, e dizia que quando entrava, não saía mais. Tantos anos depois, a história de dona Itumara ainda seria capaz de intrigá-lo.
Ele pediu então algumas das telhas emprestadas e mandou para análise. Entrou em contato com um engenheiro mecânico responsável pela fabricação daquele tipo de cerâmica, mas o homem não soube identificar o que aconteceu, nem que parâmetros físicos ou químicos estariam envolvidos naquelas danificações. Na maioria das telhas havia lascas de um a 20 cm de diâmetro, semelhantes a bolhas estouradas. É preciso mais de mil graus para se formar uma telha dessas, disse o engenheiro. O professor Elver acredita que, a nível mundial, os OVNIs – objetos voadores não-identificados – produzem um efeito microondas quando o campo magnético deles está muito próximo da Terra.
No mesmo dia do incidente, 02 de agosto de 2008, um funcionário do mercado próximo à casa de dona Itumara teria visto um grande objeto em forma de cone sobrevoar o telhado dela. O testemunho do funcionário surgiu entre os boatos que se contam na vizinhança, pois ele jura que não viu nada. Assim como muitos na cidade, ele tem medo de ser taxado de louco. O professor Elver, que até hoje estuda o caso, tem somente uma certeza, a de que “para fazer uma lasca sair dessa telha, não é qualquer isqueirinho que vá conseguir”.
Cidade sitiada
Histórias como essa fazem parte do imaginário dos moradores de Caçapava do Sul, na região central do Estado, a cerca de 260 km de Porto Alegre. O município, de pouco mais de 30 mil habitantes, ficou conhecido pelo grande número de relatos a respeito de discos voadores, tanto na cidade como em seus outros seis distritos. O que se fala na cidade é que, quem ainda não viu, pelo menos já conheceu alguém que viu alguma coisa estranha no céu.
E realmente não parece difícil encontrar algo diferente no céu caçapavano. É uma abóbada tão límpida – sem luzes e sem poluição – que à noite, do alto dos 450 metros de altitude em que fica a cidade, é possível ver um número de estrelas maior do que a gente possa acreditar que exista. Durante o final de semana em que estivemos lá, não vimos nada distinto, além de uma estrela cadente. Mas se ficássemos mais três ou quatro dias, teríamos com certeza descoberto algo incomum – como nos garantiu o tatuador Yuri D’Ornellas, que já teve mais de seis experiências envolvendo objetos luminosos (numa delas, inclusive, disse ter se comunicado com o OVNI usando a luz alta de seu carro).
O grande número de avistamentos levou à criação de dois grupos de estudos na região. Um deles é o GPUC – Grupo de Pesquisas Ufológicas de Caçapava, fundado há mais de 10 anos, e do qual o professor Elver é o principal atuante. Segundo ele, não há nada de extraordinário na cidade, a não ser a atenção dos moradores, voltada para cima. Já o Projeto Portal, grupo do Mato Grosso do Sul – e cuja uma das sedes fica em Minas do Camaquã, um dos distritos do município – se estabeleceu ali por motivos ainda mais concretos.
O ufólogo gaúcho Alexandre de Oliveira, um dos pesquisadores do Projeto Portal, acredita que a fama do lugar está relacionada à sua localização. Foi feito um levantamento, segundo ele, e constatado que realmente havia muitos relatos de avistamentos, devido à influência de um forte magnetismo. “A região favorece algumas aberturas no espaço”, explica. “Podemos chamar de xendras, que são portais por onde esses objetos entram na atmosfera, possibilitando ingressarem no nosso espaço tridimensional, que é a Terra. O modo como esses portais abrem e fecham, e dão vazão para a aparição de algum fenômeno, é muito similar ao método utilizado no Triângulo das Bermudas.”
Quanto à formação rochosa insólita do lugar, a geologia do professor Elver não nega: “é um local com uma energia muito forte. São energias telúricas, geomagnéticas.” Caçapava é uma região que têm muitas fraturas, ao redor da cidade e em todo o município. “A crosta da Terra é uma casca de ovo trincada”, diz o professor, “e dessas regiões vêm emanações magnéticas fortíssimas de dentro”.
Eles estão entre nós
Passamos por estradas completamente desertas no segundo dia, e levamos uma hora de carro até Minas do Camaquã, a 70 km do perímetro urbano. A vista maravilhosa dava para os rochedos, e vez ou outra uma espécie de neblina cobria tudo – o que na verdade era a poeira das fábricas de calcário da região. Naquele domingo, os pesquisadores do Projeto Portal encerrariam um “trabalho de campo” lá. Um senhor em Caçapava, que na véspera havia recém chegado das Minas, nos garantiu que o lugar estava “cheio de ufólogos”. Seria o fim de mais um encontro paracientífico de final de semana.
A sede do projeto ficava logo na entrada, ao lado de uma alameda de araucárias que acompanhava boa parte do caminho. É um galpão comprido, que lembra uma colônia de férias. Pedimos informação a um senhor que ajeitava uma barraca dentro de um porta-malas lotado. Ele vestia uma camiseta com imagens de discos voadores e outras figuras místicas, e os dizeres Você ainda acredita que estamos sozinhos no Universo?
– O Urandir está se preparando para encerrar o evento – disse o homem. Urandir era o pesquisador que viemos encontrar. – A noite foi longa e ele quase não dormiu.
Atravessamos todo o povoado – um aglomerado de casinhas simples, com as janelas e portas fechadas, e nenhuma viva alma nas ruas. O prédio decrépito que um dia foi o hospital, e um galpão que imitava a fachada de um saloon americano, reforçavam a ideia de uma cidade fantasma do Velho Oeste. Subimos um morro rodeado por campos verdes e chegamos a um paiol de CTG, onde os participantes do grupo começavam a se acomodar.
Eram cerca de 160 pessoas de diversos locais do Estado que estavam ali. A maioria delas já acompanha o projeto há mais de 10 anos. Nós não pudemos participar da palestra de encerramento, pois, segundo os ufólogos, era voltada para o público avançado, e nós “não entenderíamos nada”. E então, distribuindo sorrisos e acenos ao público do evento que o aclamava, Urandir de Oliveira apareceu.
O mensageiro dos céus
Desde pequeno ele já fazia coisas fora do comum. Entortava talheres e quebrava pratos com a força da mente. Sempre gostou do desconhecido – chegou a dormir em cemitério para ver fantasma. Aos nove anos já sentia presenças por perto, via vultos, e ouvia vozes chamando seu nome. Naquela época, ele não tinha conhecimento algum sobre assuntos ligados à ufologia, apesar de que as iniciais de seu nome – Urandir Fernandes de Oliveira – (segundo ele por pura coincidência), formam a sigla UFO.
Foi somente aos 13 anos que ele teve seu primeiro contato. Eram seres muito parecidos com nós (os humanos), altos e muito bonitos. A única diferença de uma pessoa normal é que tinham as pupilas verticais – como os olhos de gato – e as unhas muito brancas. Falavam com uma voz muito clara. Ele foi sugado de seu quarto por um feixe de luz violeta e levado para o interior de uma nave, onde os seres lhe encarregaram de uma missão muito especial: transmitir suas informações aqui na Terra. Mais tarde, ele viria a fundar o Projeto portal.
Quando há um grupo que faz esse trabalho – uma espécie de vigília noturna nos céus – os seres de outras galáxias podem captar a frequencia do cérebro. Urandir diz se comunicar frequentemente com esses seres. Chegou a fazer uma espécie de acordo com eles: aceitaria a missão de ser um porta-voz dos céus, se eles se comprometessem a aparecer para um grupo de pessoas, para provar que existem, e para que ele não “pagasse mico, não caísse no ridículo”.
– Foram várias manifestações – disse Urandir, sobre a vigília da véspera. – O pessoal ficou maravilhado com aquilo que viu, em termos de luzes, de objetos, de manifestações… Foi demais, foi um show! A luz imensa, as manobras radicais que eles promovem, tudo isso descarta qualquer possibilidade de tecnologia da Terra.
Segundo o dito paranormal, esses seres querem unicamente ajudar a humanidade, que está “alienada pela influência dos dirigentes mundiais”. Foram visitantes de outros mundos que povoaram a Terra, diz ele, e afirma que cerca de um terço da população do planeta teria descendência alienígena.
Os ufólogos são unânimes em dizer que aquela figura assustadora dos ETs – uma criatura cabeçuda e de olhos gigantes – não existe. São, na verdade, seres constituídos basicamente de energia. Enquanto nós somos formados por 90% de matéria, eles são o contrário, apenas 10%. Mesmo o professor Elver, que segue uma linha de estudos distinta do Projeto Portal, acredita que “lagartinho gosmento não dirige nave espacial”. Eles são, de forma geral, seres humanos muito mais antigos do que nós. Falam fisicamente, em português claro (eles teriam uma grande facilidade em aprender línguas) – já que evidências telepáticas ou psicografadas não são aceitas: tudo o que tiver interferência mental ou astral leva a um resultado péssimo em relação à pesquisa.
“Uma grande pilantragem”
Segundo o Departamento de Astrofísica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a existência de vida extraterrestre vem sendo discutida desde a década de 1950. Ganhou mais intensidade nos últimos anos, graças à detecção de possíveis microorganismos em um meteorito de Marte, e da existência de oceanos congelados no planeta (a água é o elemento primordial para a existência de vida). Segundo o astrofísico Basílio Santiago, docente na universidade, há coisas sensacionais acontecendo no mundo da ciência, e que são muito mais verificáveis do que aparições de OVNIs.
A regra fundamental é que os seres vivos tenham metabolismo, se reproduzam, sofram mutações, e reproduzam essas mutações. Já a vida inteligente, requer mais de uma centena de bilhões de células, diferenciadas em um organismo altamente complexo. Portanto, a seleção natural requer um longo tempo. A existência de vida inteligente pode ser descartada em todos os demais planetas do Sistema Solar, segundo o site do departamento.
Dentro de um raio de 80 anos-luz da Terra, existem cerca de 800 estrelas similares ao Sol. A espaçonave mais veloz que a espécie humana já construiu até agora (o Voyager, da NASA) levaria 80 mil anos para chegar à estrela mais próxima. O combustível necessário para a viagem ocuparia mais de mil navios. E esta é a principal razão para que os astrônomos sejam tão céticos a respeito dos OVNIs. Devido às distâncias enormes e gastos energéticos envolvidos, é improvável que as dezenas de relatos noticiados a cada ano pudessem ser visitantes de outras estrelas, tão fascinados com a Terra que estariam dispostos a gastar quantidades fantásticas de tempo e energia para chegar aqui.
O chefe do Departamento de Física da universidade, Marco Idiart, acredita que todas as evidências de ufos são relatos em que é preciso confiar mais em que conta do que no próprio bom senso. “Via de regra, quando se pergunta a essas pessoas onde estão as provas materiais, eles inventam teorias conspiratórias, onde os extraterrestres não querem se dar a conhecer”, diz ele. “Ou seja, uma grande pilantragem”.
Os moradores de Caçapava do Sul, no entanto, não parecem estar preocupados com questões de física quântica ou astrobiologia. As luzes misteriosas que eles veem no céu não carecem de explicações científicas. A única coisa que incomoda a professora Itumara, por exemplo, é o fato de que nenhuma força do universo vai se responsabilizar pelo prejuízo em seu telhado.





